25.11.11

Tempestade

                                Eu choro, desfaço-me em lágrima.
                                   sou mar. água salgada.

Calmaria


                            eu rio, transbordo de rir.
   
               desaguo em mar. sou oceano
   
                                                                                   Eu não caibo em mim.

17.11.11

Sobre a Verdade


Se despíssemos as palavras das vestes da metáfora e disséssemos explicitamente o que elas representam, certamente causaríamos alvoroço, constrangimento em alguns ambientes. Porque verdade é nudez de atitudes, transparência do mais íntimo ser.

Se colocássemos a verdade nua e crua sobre pratos limpos e servíssemos em banquete, muitos declinariam o convite. Porque verdade sem adorno é prato indigesto, pesado pra muita gente.

Se falássemos a verdade sobre tudo o que pensamos e sentimos - a despeito das consequências - seríamos temidos e ganharíamos uma porção de inimigos. Porque a verdade é avessa à tapinhas nas costas, sorrisos convenientes. É senhora de poucos e seletíssimos entes.

|La Naissance de Vénus, 1879, de William-Adolphe Bouguereau - Musée d'Orsay, Paris|

10.11.11

Submissão


Por noites a fio velou seu sono. Em outras, acompanhou a insônia. Amparou seus relatos - segredos confiados às folhas virtuais, manuscritos. Sobre si pesaram as histórias dos livros e as notícias das revistas dela. Também as lágrimas escondidas em lenços de papel. Elegante, em riste, calado; assim esteve o tempo todo à esquerda, bem próximo do coração dela. O dia amanhecera triste, a chuva molhava o vidro da janela. Desnudo de seus pertences, assistia silente sua partida. Obediente, permaneceu ali. Inerte. Caminhar, além do dela, somente o das horas no relógio esquecido sobre si. Seu papel sempre fora amparar objetos: luminária, fotos, remédios. Portanto, submisso, o criado - e mudo que era - nunca se fez ouvir. Mas naquele momento, tudo o que mais queria, era confidenciar-lhe o quanto gostaria de partir com ela.