31.10.11

Dia D(rummond)

                                |Copacabana, Rio de Janeiro, 2011|

Se estivesse vivo, o poeta de Itabira-MG, completaria hoje 109 anos. Drummond despediu-se de nós, mas sua poesia, diferente da vida que é efêmera, permanecerá.


Os Ombros Suportam o Mundo 
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram. 
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.

Resíduo
(...) Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.
.
(...) E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.
        
|31/10/1902 - 17/08/1987|

27.10.11

Predicativo do Sujeito




Sou aquilo que vejo, que ouço. Sou o que penso, o que falo, o que sussurro ou calo. Aroma e perfume. Eu sou essência. Sou a vida que exalo, que salta pelos poros. Sou lenda, sou miragem. Sou um longa metragem. História em construção. Sou mar e embarcação. Passado, presente e o que há de vir. Sou o que escolho e o que não tenho opção. Sou o solo onde piso, os caminhos que cruzo. Perco-me onde me encontro, misturo-me ao que me encanta. Sou sempre mais que eu. Sou duas, três ou cem. Eu sou plural. Vento, tempestade, bonança e calmaria. Sou flor e seus espinhos. Dimensão e volume. Eu sou esfera. Não tenho ponto de partida ou destino definido. Talvez eu seja até o infinito.

20.10.11

A (in) Sustentável Leveza do Ser


O que me rasga os lábios nos melhores sorrisos? O que me eleva ao céu, me põe sentada sobre as nuvens? O que é isso, que de tão bom, tem o poder de me fazer levitar? 

O que me faz triste, me faz desacreditar? O que me põe pra baixo, me acorrenta ao chão? O que é isso, que como um fardo, pesa sobre minha cabeça?

O filósofo Parmênides (cerca de 530 a.C. - 460 a.C.) comparava as qualidades umas com as outras - o frio era a ausência de calor; as trevas, a ausência de luz; o peso, a ausência de leveza. Dessa forma, concluia que a segunda nada mais era do que a negação da primeira e, portanto, nosso mundo era dividido em duas esferas: a das qualidades positivas e a das qualidades negativas. 

Com base nessa filosofia, respondo as questões que coloquei acima: o que me deixa pra baixo são os agentes oportunistas, que entram na minha vida através das lacunas deixadas por descuido. Em contrapartida, o que me eleva o espírito são as pessoas queridas, momentos especiais, valores sem os quais não faria sentido viver; e estes, podem ser traduzidos como luz, leveza, calor - são os itens que fazem parte da esfera boa, das qualidades positivas mencionadas por Parmênides.

Cabe a mim filtrar esses itens, separar o joio do trigo. Fica o que é bom, o que está em cima da peneira. O que sobra é resto, bagagem desnecessária - é peso que me impede de alçar voo.


De forma alegre/descontraída, esse video traduz  - pra mim - um pouco do que significa a palavra leveza (para melhor assistí-lo, pare a reprodução das músicas na coluna ao lado).

7.10.11

Déjeuner du Matin |Jacques Prévert|

3.10.11

Só o Tempo


Com o passar do tempo, a gente se pega sorrindo. Rindo. Debochando da gente mesmo. Porque a dor só é dor enquanto está aberta, exposta em ferida. Depois que passa, passou. O tempo cura, resolve, extingue - é remédio cicatrizador.

Com o passar do tempo, a gente vê melhor. Enxerga o mal como ele é, não tem medo de chamá-lo pelo nome. Porque a dor só é dor enquanto estamos cegos. Depois que passa, passou. O tempo é como chuva, enxurrada, torrente de água - é colírio em grande quantidade.

Com o passar do tempo, a alma vira jardim. Torna-se colorida, desabrocha em flor. Porque a dor só é dor enquanto a vida está sem cor. Depois que passa, passou. O tempo é como adubo, fertilizante. É pássaro que espalha alegria - semente que onde cai germina.