29.8.11

Meu Jardim

À frente da minha casa, mais precisamente do lado esquerdo, tem um jardim. Ali, naquele cantinho conhecido por coração, há muitas flores de uma espécie abundante chamada "pessoas". Queridas flores que ao longo da vida são plantadas, nunca colhidas.

Há fases em que o jardim está repleto: familiares, amigos, amor. Primavera em meu coração.

Algumas dessas flores são consumidas por excesso de exposição  ao sol, tragadas por chuvas intensas, enfraquecidas por falta de nutrientes, sufocadas pela presença  de ervas daninhas. Por isso, elas nunca estarão todas juntas - ao mesmo tempo -ocupando meu jardim. Pela ordem natural da vida, nascerão, crescerão, morrerão. Em épocas diferentes, em situações distintas. Mas dentro de mim, jamais  partirão por completo. Como todo bom perfume, volta e meia serão lembradas.

Procuro, da melhor maneira possível, cuidar do meu jardim, razão da minha existência. Sem ele, coração, não existo; sem elas, as pessoas, não faço sentido. Tento ser bom jardineiro, mas sei que  por excesso de zelo, ou falta dele, vez em quando deixo a desejar. Peço, então, às minhas preciosas flores, que tenham paciência. Sei o quanto são delicadas e minhas mãos tantas vezes pesadas.

26.8.11

Palco


PRIMEIRO ATO
Tô doente da alma, moribundo do coração.
Doendo da vida, crônico de solidão.

Tô infeliz até os dentes, descontente com tanto não.
Cabisbaixo, chutando lata, triste como um cão.

Tô chorando todo engano, pranteando decepção.
Transbordando oceano, inundado de desilusão.

(Curvo-me aos aplausos. Fecho a porta do camarim.
 Dispo-me de quem sou, deixo tudo atrás de mim)

SEGUNDO ATO
(Tô de volta à realidade.
 Caprichei na maquiagem,
 vesti-me de personagem)

Tô saudável, tô contente.
Feliz da vida, sorridente.

19.8.11

Effeuiller la Marguerite


Pobre margarida nas mãos da menina que brinca.
Bem-me-quer, mal-me-quer.
Desfaz-se ao chão, entregue à sua falta de sorte.
Completamente despida, esfacelada,
ouve os passos da pequena que se afasta.
Largada ao deus dará, assiste sua última pétala rodopiar:
m a l - m e - q u e r 

16.8.11

Faxina

Inspira, expira. Distende o peito. Olha para o passado. Hoje é permitido, é dia de faxina. Mude a ordem das prioridades, ajeite os novos propósitos. Reorganize o armário  das lembranças, desobstrua as vias da  vida. Gavetas cheias de ilusão  devem ser  viradas para baixo. Projetos não concretizados são lixo - não se dá, não se doa, substitui-se por outros: novos, reluzentes. Tristezas jogadas pelo caminho são entulhos que atrapalham o tráfego de boas novas. Precisam ser  varridas, banidas, jogadas às águas correntes, para o nunca mais. Sentimentos amargos consomem energia, sufocam alegrias. São como traças - roem sorrisos, deixam buracos  por onde  passam.  Remova com espátula os pensamentos infrutíferos, arranque-os pela raiz. Esfrega tudo com palha de aço. Dissolva marcas, cicatrizes, em água raz. Hoje é dia de faxina. Olhe ao redor. Inspira, expira. Mude tudo de lugar. Abra espaço para o novo chegar.

8.8.11

Dos Caminhos

Caminho é alternativa. Opção. Caminho é estrada, pedra, areia, asfalto. É chão.

Caminho tem aroma, cor, sol, amor. Pode ter chuva, lágrima, dissabor. Depende do dia, inclusive da companhia.

Caminho tem túneis,  trechos escuros. Flores e espinhos. Caminho é inverno, verão. Pode ser qualquer estação.

Para frente, esquerda, para trás  ou direita: caminha-se. Para o fundo do poço - pra lá também tem trilha.

Caminho. Caminhas. Caminha ela. Eles também. Juntos ou separados, caminhamos nós.

Cada qual traça sua linha. Cada um segue em sua mão. Caminha. Mesmo quando sem direção.

3.8.11

Décadence avec Élégance

Das lágrimas que represamos, das palavras que não pronunciamos, do riso que freamos, dos sorrisos que costuramos, das tristezas que disfarçamos, do coração que remendamos, do grito que abafamos, dos sapos que engolimos, da opinião que não revelamos, do eu que negamos.

Dessa permissiva-maligna-tola é que nascem as síndromes-modernas-todas. Em nome do respeito à falsa ética, moral, bons costumes e tal, deixamos de vomitar tudo aquilo que nos faz mal.

"Politicamente corretos", fingindo que os maus são bons e que o bem é mal, prosseguimos doentes, à margem da realidade, fingindo felicidade, vestidos de hipocrisia, vivendo de mentirinha.

1.8.11

Meia Noite em Paris


Demorei para assistir, mas essa demora teve lá suas vantagens. Uma delas foi o receio de o filme sair de cartaz, o que aguçou ainda mais minha vontade de vê-lo, afinal, não teria a mesma graça se não fosse na telona.

A
lém da beleza incontestável da Cidade Luz e da genialidade de Woody Allen, o filme vale muito pelo passeio à Paris dos anos 20. Para quem leu "Paris é uma Festa", de Ernest Hemingway, é inevitável não relacionar as duas obras, já que grandes figuras da época são personagens presentes em ambas: o casal Fitzgerald, T.S. Eliot, Gertrude Stein, além do próprio Hemingway. O enredo ainda traz à luz outros ilustres da mesma década, como: Pablo Picasso, Salvador Dalí (interpretado pelo  maravilhoso  Adrien Brody, de  "O Pianista"), Miró e Mark Twain.
Um filme sobre o amor. Amor por Paris, pelo passado, pelas artes. Amor pela mulher que, sorrindo, aceita caminhar sob a chuva. Um filme sobre quem sonha e busca, sobre quem não concorda em acomodar-se e é capaz de abrir mão de tudo para redescobrir-se num outro lugar.

Da trilha sonora, ficou em meus ouvidos a melodiosa "Si Tu Vois Ma Mère", de Sidney Bechet.

“De onde eu venho, as pessoas medem a vida com colherinhas de cocaína.”
(paródia de um verso do poeta americano T.S. Eliot, que morou em Paris entre 1910 e 1911)

“Tenho uma ideia de roteiro: pessoas não conseguem ir embora de um jantar
 simplesmente por que não lhes ocorre abrir a porta.”
(Gil, personagem principal do filme, tentando soprar a ideia de “Anjo Exterminador” para Luiz Buñuel)