27.7.11

Pelos Olhos da Íris

Tête-à-tête, conversa franca. A Íris e ela. Queria desabafar, estava triste. Não ela, mas a Íris. E esta, que sempre desempenhara o papel de ver, parte dos olhos que era, agora se pôs a falar. E foi mais ou menos assim, até onde posso lembrar...

Cabisbaixa, quase curvada, falou da falta de vida dentro daqueles olhos castanhos. Dizia que a Pupila há tempos mantinha quase nula a luminosidade ali dentro. Estava vendo o mundo apagado. Pouco brilho, pouca alegria, quase nada. Sentia falta do arco que levava seu nome, porque como ela, era feito de cores. Nostálgica, chorava também a falta dos tempos ensolarados, da luz dourada que outrora aquecera seus dias. Falante, sentiu-se no divã. Abriu seu coração, pediu: - Um pouco, um pouco só de emoção.

E sua interlocutora que sempre fora tão cética com essas coisas de visão, mostrou-se  receptiva e encarou o desabafo da Íris como uma confirmação: os olhos sempre revelam verdades, queira a gente ou não. 

21.7.11

Convite

Venha. Achegue-se. Aconchegue-se.
A porta está aberta, o coração liberto.
O sol entra pelas janelas, a brisa sopra com leveza.
O jardim está florido, a alma lavada.
Venha com humildade, alegria, suavidade.
Chegue com a cara e a coragem,
mas deixe do lado de fora sapatos carregados de poeira,
vestígios de outras estações.
Tristezas vividas, histórias mal resolvidas:
para estas não tenho solução.
Entre, feche a porta. 
Achega-te. Aconchega-te.
Venha, mas venha por inteiro.
Traga malas, corpo, imensidão.

18.7.11

Das Muitas Mortes

Há alguns dias, terminei de ler "À Espera da Neve em Havana", do cubano Carlos Eire. Gostei de toda a narrativa, mas os últimos capítulos não saem da minha cabeça desde que fechei aquele livro.

Se não me engano, são os três últimos. Ali, o autor - e também personagem principal do livro - em alguns techos, fala a respeito da morte. Não de quando paramos de respirar e a vida chega ao seu final, mas daquelas mortes pelas quais passamos em vida: morte que nos enlaça nas mudanças bruscas de percurso, da advinda de perdas, renúncias, reviravoltas, desengaños. Fala também de algumas verdades que precisam ser enterradas, caso contrário, daremos chance para que elas nos enterrem. E sobre esta, o autor diz:

"[...] sacrifico verdades dolorosas constantemente, sobretudo a meu respeito, e as enterro sem ler suas entranhas antes. É um modo de sobrevivência que aprendi em pleno curso, quando meu mundo foi reduzido a nada, pedaço por pedaço."

Confesso que, vítima ou autora, já morri muitas vezes nessa vida. E sem querer ser pessimista, sei que morrerei algumas outras.

Recomendo - o livro, obviamente. Quanto às mortes, veja você se precisará passar por elas.                                                                         

"Há muitas maneiras de morrer. Só uma é definitiva, claro. Mas antes que uma delas o derrube de vez, muitas outras acontecem, como ondas na praia."

"E percebo que já não sou mais o mesmo e nunca serei."

"E no dia em que deixei aquela casa, morri de novo. E fui enterrado um pouco mais fundo, dessa vez."

"A morte pode ser linda. E acordar é ainda mais lindo. Mesmo quando  o mundo mudou. Principalmente quando o mundo mudou."

14.7.11

Quase Completa

Caminho. A noite está morna, mas há trechos em que o ar gelado da vegetação penetra em meus poros. Ondas de arrepio. Frio que não é bem frio. Sensação boa.

Caminho. Sessenta minutos. Nós dois (que somos muitos) juntos: eu e meu pensamento. Flashes. FF/RW. Avanços e retrocessos. Sinto-me leve e tranquila. Acho que é a endorfina.

Músculos e tendões. Mente e coração. Alongados. Todos eles.

Água-quente-corrente. Alivia-relaxa-faxina. Fogo que não é bem fogo. Deixa marcas vermelhas no corpo. Nuvens de vapor. Fumaça. Enlevo.

Quarto escuro, tomado pelo silêncio. Aconchego-me entre travesseiros, lençóis, edredom. Fecho os olhos. Mal me mexo. Assim, espero o sono chegar. Feliz, talvez. Em paz, com certeza. Quase completa.

1.7.11

Torcendo

Acalenta-me, Caetano, com tão linda e suave canção. 
Faça-me viajar em sua doce melodia e traga-me o mel da sua voz aos ouvidos.

(Dê stop no gadget "À la Française", na coluna ao lado, e ouça a magia de "Água")


Eu também vou ficar aqui torcendo. Juro que vou.