27.8.10

Tudo Dói

Há uma semana pus um piercing no lado esquerdo do nariz.
Por ironia do destino, ele dificulta meu choro.
O nariz arde, escorre e mal posso limpá-lo.
Mas, consigo ver um lado positivo: a dúvida.
O que tem doído mais? A alma ou o nariz?

Para ajudar, pus um na orelha direita também.
Por ironia do destino, ele atrapalha meu sono.
Não posso dormir voltada para esse lado.
Mas, consigo ver um lado positivo: a dúvida.
O que contribui mais para que meu repouso não seja tranquilo?
A tristeza que sinto ou o piercing na orelha?

E ainda resta uma outra dúvida,
mas não consigo ver seu lado positivo:
O que levará mais tempo para cicatrizar?
.
.
.
Temo ser o coração.

25.8.10

Pelo Avesso

Embora em minha cabeça acontecesse uma tempestade, eu não tinha nada para falar. Na verdade, eu não devo e não quero mais falar.

Esgotada. Foi me sentindo assim que sai dali.

Imersa em pensamentos e alheia a tudo, no caminho para casa resolvi mudar o trajeto. Sentei naquele parque, mais precisamente na praça mal iluminada da escola técnica. Procurei o lado mais escuro (e pedi a Deus que me protegesse) porque eu queria me esconder, ficar sozinha por um tempo. Ficaria ali até encontrar um pouco de alívio. Eu não tinha pressa.

Exorcizei alguns demônios - porque chorar nos despe e faz com que enxerguemos o pior que habita em nós - e expurguei a alma.

Sentindo um pouco de frio e desconforto, por ficar tanto tempo naquele banco duro, levantei e resolvi conhecer a Biblioteca de São Paulo, logo ali em frente.

Peguei o crachá de visitante e fui comunicada que tinha apenas 20 minutos, tempo em que estariam sendo fechadas as portas. Olhei para o relógio e me dei conta de que já eram quase 9 da noite.

Na recepção, o atendente me olhava com ar curioso; e a moça que me deu a chave do armário, idem. Que gente estranha, pensei.

Dei uma volta rápida pelos livros expostos e passei no banheiro. No espelho, a imagem refletida era essa: rímel borrado, olhos vermelhos. A estranha era eu!

Lavei o rosto e desci. Devolvi o crachá. Peguei minha bolsa no armário de nº 150.

Fui embora com a sensação de que havia sido virada pelo avesso. 

20.8.10

Dans Peu de Temps

Depois de vários dias de frio penetrante, o sol resolveu aquecer-nos. A sexta-feira está morna.
Está escurecendo. Na rua, as pessoas vêm e vão - parecem felizes. O final de semana chegou. 

Noite para divagar, perder-se num papo gostoso, num abraço sem pressa.
Noite para sonhar, para amar. Sorrir.

Mas, no meu coração há um vazio gigante. Uma dor oca me sufoca. Sinto que o ar me falta.
Ninguém é capaz de imaginar o que estou sentindo (e eu nem gostaria que isso fosse possível).

Mas, dans peu de temps...

A vida baterá em minha porta e perguntará: "posso entrar?"
Eu direi: "entre, por favor, entre."
E me voltarei para encará-la.
Frente a frente, nós duas: a vida e eu.

Dans peu de temps.

Em pouco tempo.

::


::

14.8.10

Ele Lá e Eu Cá

Sábado, 23 horas e alguns  poucos minutos. Estou sentada de frente para a porta,  na  recepção da pousada  X, na  cidade G, litoral paulista. Ele está lá, na cidade I, no interior, também em São Paulo. Não faço ideia de quantos quilômetros nos separam, mas no alfabeto, a letra responsável por isso é a H. Sem ela, unimos G e I. Mas, olha só que ironia: essa soma nos subtrai. A união dessas duas letras, é o verdadeiro motivo para não estarmos juntos. Ela nos afasta e nos priva de nós dois, S e P.



Não tente entender¹: não há explicação lógica ou matemática para essa conta. Afinal, em qualquer lugar, 1 e 1 são 2, mas aqui, o resultado é 3.   

Não tente entender²: trata-se apenas de um delírio insano, de um coração que procura (mas não encontra)  uma  razão para  viver   assim     descompassada, desconfiada, desanimadamente.

12.8.10

Me Peguei Pensando

Estou  aqui  numa sala  fria, cercada  por pessoas  estranhas, cada  qual  voltada  para  o  seu mundo. Fisionomias trancadas, seres isolados em meio aos semelhantes. Esse cenário me entristece.

Perco-me em pensamentos e alço vôo para um lugar tranquilo, onde posso ouvir os pássaros ao amanhecer. Fecho os olhos e permito-me acreditar que é para mim que eles cantam, especialmente para mim.

Saio da cama sem a interferência de um relógio. Aquele que, diariamente, faz questão de me lembrar que está na hora de encarar o trânsito louco da metrópole onde vivo, inalar seu ar pesado e  enfrentar o mau humor de pessoas que mal acordaram, mas já estão cansadas. 

Sento-me à mesa estrategicamente instalada sob uma janela que, embora não muito grande, tem tamanho suficiente para mostrar a vida lá fora. Ah! essa visão me enche de uma alegria pueril. Como a vida pode ser leve!

Caminho por uma estrada de terra, cercada por flores e muito verde. Sinto o calor dos raios solares que me aquecem o corpo, mas principalmente o coração.

Tenho o prazer indescritível de ver a magia do pôr do sol no horizonte e de sentir a brisa fresca do fim de tarde.

Ouço a melodia do rio corrente e das pedras sendo levadas por suas águas cristalinas. Águas que seguem seu curso, arrastando além das pedras, os impecilhos, depositando-os nas curvas de seu leito, deixando-os para trás.

Deito-me ao chegar a noite. O corpo está morto de cansaço, mas a alma está viva e radiante. Numa cama com lençóis brancos e travesseiros macios, durmo com a janela aberta, depois de assistir o espetáculo de um  céu carregado de estrelas que  brilham naturalmente, sem  necessidade de qualquer artifício. Estrelas que me  fazem suspirar de contentamento e  me convidam a revelar os meus mais secretos sonhos, temores e prazeres.

Abro os olhos (que  na verdade  nem  foram  fechados) e deparo-me  com a realidade dura, nua e crua: as pessoas continuam ali, pasmem, com seus semblantes carregados. Mas tudo certo, sinto-me bem agora. Pude nesses poucos minutos em que tirei os pés do chão, fazer uma grande e deliciosa viagem.

7.8.10

Je Voulais

Queria acreditar que esse dia foi mágico o suficiente
para apagar toda tristeza que carreguei no coração 
nos dias da semana que passou.

Queria acreditar que esse dia foi mágico o suficiente
 para não deixar eu sentir a angústia que me rouba o sono
me faz chorar copiosamente depois de duas taças de vinho.

Queria acreditar que esse dia foi mágico o suficiente
 para não permitir que o medo seja maior do que minha coragem
de enfrentar o que pode estar por vir.

Eu queria (tanto) acreditar - 
ele foi mágico o suficiente
... independente de qualquer coisa ...